Uma utopia possível

 

 

 

Três livros mudaram minha forma de ver o mundo e o outro em 2015: “Outrofobia” de Alex Castro, “Eu sou Malala” (a biografia de Malala Yousafzai) e “Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi. Todos me propuseram um olhar para o outro, para o diferente, para aquele que não sou eu.

Dos três, o que me causou maior impacto e admiração foi o livro da Márcia. Incrível resposta a tudo o que procurava, ele me deu as bases para ser quem sou desde o momento em que comecei a lê-lo.

Por admiração e para não esquecer suas principais mensagens, fiz um resumindo das ideias-chave ali propostas. Eu tinha estabelecido essas ideias como metas pra vida, mas achei melhor apresentá-las como um resumo do livro, afinal, em se tratando de utopia possível, cada um vai buscá-la a seu tempo…

“Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi

(Uma amostra grátis da utopia possível em nossos tempos)

1. Falar sim sobre política/ensinar a pensar política (“Talvez a destruição da política seja a verdade oculta na razão de Estado atual);

2. Dialogar com fascistas (resisitir. Com a alma. Com o corpo, se necessário);

3.Dialogar como forma de resistência; devolver às pessoas a capacidade de dialogar (aventurar-se no desconhecido);

4.Olhar mais para si mesmo e policiar-se quanto aos preconceitos cotidianos (que sim, todos cometemos);

5. Posicionar-se quando necessário, contribuindo para a “perfuração do muro ideológico da ignorância”;

6. Sair da posição de vítima;

7. Ensinar amor aos filhos (e não ódio, nem desconfiança);

8. Escutar mais mesmo que essa escuta exija resistência física e emocional; olhar e escutar com empatia;

9. Produzir aberturas (“Como apresentar a experiência do outro a quem ainda não o concebeu?”)

10. Ser capaz de contemplar o outro;

11. Lutar contra o império da burrice e da canalhice que impera nos dias de hoje;

12. Lutar contra o consumismo da linguagem;

13. Lutar contra toda e qualquer forma de autoritarismo (os próprios inclusive);

14. Lutar contra a Indústria Cultural e a banalização de expressões legítimas de culturas historicamente excluídas;

15. Ajudar a desconstruir a lógica das “hordas de zumbis antipolíticos”;

16. Lutar contra a “ignorância elevada a método de dominação cultural”;

17. Lutar contra a sociedade do assédio;

18. Dançar a dança dionisíaca da diferença;

19. Dar-se o direito da angústia; da incerteza; da tristeza; do luto;

20. Praticar o desapego;

21. Não condenar, julgar antes de saber;

22. Praticar sororidade;

23.Lutar pela descriminalização das drogas;

24. Lutar pela legalização do aborto;

25. Ser mais e mais feminista;

26. Ajudar homens a desconstruir seus machismos cotidianos;

27. Ler mais livros;

28. Convencer as pessoas a desligarem a televisão;

29. Ajudar as pessoas a se libertarem do vício da televisão;

30. Lutar com ética e política contra a invejoso e o portador de ódio;

31. Combater o “coronelismo intelectual” da grande mídia;

32. Praticar o pensamento livre (autocriticar-se, buscar conscientemente as próprias inconsistências, possibilitar-se a autocriação);

33. Lutar, mesmo que minimamente, contra a antipolítica e a antieducação;

34. Incentivar a invenção teórica, a liberdade de interpretação e de expressão;

35. Combater a ditadura “micrológica” do cotidiano;

36. Silenciar mais; saber ouvir;

37. Lutar com informação contra o intelectualismo preconceituoso hereditário no Brasil (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, Darcy Ribeiro entre outros);

38.Lutar contra a ideia do Brasil esteriotipado (homem cordial, jeitinho brasileiro etc);

39. Pensar o Brasil (e não reproduzir o senso comum);

40. Investigar a veracidade do senso comum antes de reproduzi-lo, compartilhá-lo;

41.Ouvir o que o outro tem a dizer; não projetar-se no outro;

42.Colocar-se sempre no lugar do outro antes de emitir qualquer julgamento;

43.Desejar relacionar-se ao outro;

44. Ser sujeito e objeto. Tudo ao mesmo tempo;

45.Não confundir discurso com diálogo; buscar o segundo e não o primeiro;

46.Aceitar o estranho que em nós habita;

47. Sair da lógica “mesmo-outro” e buscar a lógica “entre-nós”.

Carolina Poppi

Ouvir mais que falar

 

ouvido

 

Há algum tempo mudei minha postura social: tenho me colocado em posição de ouvido e não de fala, como costumeiramente agia. É bem verdade que a maternidade catalisou essa postura, mas já há tempos me angustiava as certezas do mundo, aquelas perceptíveis nas condutas e ações de quem muito fala e pouco escuta.

Agora, como espectadora, surpreendo-me, diariamente, com as contradições humanas: o agressivo que ataca para se defender (muitas vezes de si mesmo), o monolítico de um só assunto que, ao reforçar seu único tema de vida, tenta se convencer daquilo que lhe dói a alma, a mãe que aponta o dedo para a que amamenta pois não conseguiu fazê-lo, o machista que oprime a companheira por ter sido (ou ainda ser) um oprimido, o espertão que tem dúvidas de sua capacidade, a despeitada que deseja mal ao outro por ser infeliz, a depressiva congênita que acusa o mundo de suas dores sem sair do lugar etc.

Eu também tenho mil posturas criticáveis, milhões talvez. Mas, na pretensão de não saber tudo, desde que me tornei mais plateia que palco, pude perceber que o ser humano deve ser objeto de compaixão e não de ódio. São tantas as fraquezas e inseguranças por trás das posturas agressivas que, ao não responder a uma agressão, somos capazes de assistir a uma verdadeira desconstrução diante de nossos próprios olhos: de certas e precisas a tristes e frágeis, em segundos, as pessoas denunciam seu verdadeiro eu.

Daí vem a minha inquietação. Como posso educar uma pessoinha se não posso deixá-la livre para se expressar? Como posso ser responsável pela formação de uma criança se digo a ela tudo o que deve fazer sem ao menos saber o que pretende ou o que quer. Se eu não puder ouvi-la, respeitá-la e ajudá-la em suas próprias construções, quem será ela daqui a algum tempo se for toda certeza e nenhuma dúvida?

Pais doentes fazem filhos doentes. O mundo anda doente. O ódio é a tônica. A concorrência é o foco. “Senta aqui, filho”, “Pega uma fruta também, amor!” “Bate de volta, doçura”, “Manda um beijo pro tio da pipoca, querida”. Eu não vou falar pela minha filha, eu não vou agir por ela. Eu não vou fazer pela minha filha enquanto ela puder fazer por si própria. Eu vejo pais fazendo pelos filhos o tempo todo. O tempo todo.

Quantos pais e quantas mães se perdem na criação de seus filhos porque as crianças “têm que” alguma coisa. “Tem que dormir sozinha!”, “Tem que desmamar”, “Tem que comer de colher”, “Tem que dormir a noite toda”, “Tem que comer sempre a mesma quantidade em todas as refeições”, “Tem que dormir todas as noites no mesmo horário” e assim vai… será que somos todos iguais? Queremos filhos robôs ou seres livres?

É na relação do silêncio, é na troca de olhares, é no escutar, é no aconchego que está a chave para uma relação menos contraditória. Mais respeitosa. É no recolher-se e não no dissipar-se que está o existir menos frustado.

 

Carol Poppi

 

 

Meu relato de parto (e de violência obstétrica)

11270155_10153555159645921_186683169_n

Quem me conhece já ouviu inúmeras vezes a estória do meu “parto normal”. Eu, pelada, andando pelos corredores do Hospital São Luís, chorando de dor, chamando as enfermeiras de “moças” e implorando por uma cesárea. Sim, uma cesárea.

Apesar de ser bastante engraçada a forma como conto esse episódio da minha vida, passados 15 meses do nascimento da Elena e após muita reflexão e contato com informação de verdade, eu volto para contar que de engraçada essa estória não tem é nada. Eu sofri violência obstétrica do início ao fim da minha gestação e também durante o parto e, por isso, por entender que eu tenho a obrigação com outras mulheres e também comigo mesma de entender o que vivi, venho aqui para (re)contar a quem interessar as principais e mais marcantes experiências negativas que tive como mulher, gestante e parturiente.

Embora tenha todos os detalhes vivos na minha memória (e na do Fred também), eu vou, apenas, neste texto, apontar as violências que sofri para, talvez, um dia, esmiuçá-las.

1 ) VIOLÊNCIA VERBAL: fui informada pela minha GO (que era minha médica ginecologista há mais de 5 anos), na 20ª semana de gestação, que talvez não fosse possível um parto normal por eu ter, na época, 33 anos de idade; nem vou comentar as outras bizarrices dessa conversa, como chamar doula de “fazedora de sanduíches para marido”, entre outras pérolas;

2 )DESEMPODERAMENTO FEMININO: fui levada a acreditar, durante as 20 últimas semanas de gestação, pela minha nova médica “humanizada”, que eu era uma pessoa fraca para dor. Seu discurso era doce e bastante irônico: “Carol, Carol, desse jeito, você não vai conseguir parir. Vamos lá, você não quer um parto normal?” Nem vou dizer no que deu esse verdadeiro desserviço médico. Adivinhem se eu me senti capaz de parir na hora H?

3)DISPENSA DE DOULA: apesar de “humanizada”, minha médica me disse categoricamente não trabalhar com doula. Ela me disse que unia a função de médica e doula. Gentem!!!!  Eu caí nesse engodo! O que eu mais precisei, durante toda a minha gestação e durante o parto, foi um acompanhamento psicológico, corporal, amigo, conselheiro, feminino!!

4)VIOLÊNCIA VERBAL (2): aqui, o clímax do meu relato – violência  verbal de primeira categoria sofrida pela médica “humanizada”. Estão sentada(o)s? Durante todo o meu TP, a querida médica “humanizada” disse, repetidas vezes, que eu estava fazendo força da forma errada!! Aquilo foi acabando comigo. Eu fazia, fazia força e nada. Já estava desistindo de mim mesma, quando a plantonista (criatura santa que os céus enviaram para mim naquela hora) disse: “Perfeito, Carol, sua força está certinha. Vai firme, sua Elena já está quase aqui!”

5) VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA: tentativa de cesárea após 5 horas de TP por motivo de… mecônio! Quem salvou a parada? Novamente, a plantonista que, após conferir o batimento cardíaco da bb, disse que estava tudo ótimo e podíamos continuar;

6) VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA: tentativa de episiotomia. Se não fosse pelo Fred, já que na hora eu não tinha forças nem pra discutir, eu estaria toda retalhada. Dissemos “não” de forma categórica;

7)INTERVENÇÃO DESNECESSÁRIA:  fui submetida a uma intervenção, já na fase final do expulsivo, chamada “manobra de kristeller”; não vou comentar porque essa, juro, é de doer o coração. Fica, porém, registrado aqui que Elena nasceu com a clavícula quebrada. Tirem suas próprias conclusões;

8)VIOLÊNCIA HOSPITALAR: minha filha não veio aos meus braços assim que nasceu, foi aspirada e ficou em observação por alguns minutos; minha filha não mamou após o nascimento e só apareceu no quarto após 6 horas do parto e de banho tomado. Pergunto: rolou uma glicose, não?

Fica aqui registrado o meu relato breve de parto e, sobretudo, o relato das intervenções violentas que sofri. Quem sabe, em um futuro próximo, eu não reelabore alguns dos itens dessa lista e conte com mais detalhes o que vivi.

Carol Poppi

Sobre maternidade e feminismo

 

download

Sou feminista e também sou mãe e faz algum tempo que quero abordar o assunto “maternidade” sob o viés feminista. Sinto-me muitas vezes não amparada dentro do movimento nas pautas relativas à maternagem/maternidade e isso me deixa um tanto quanto frustrada. A impressão que tenho é que às vezes só se considera a escolha pela não maternidade como uma pauta feminista. Compreendo que ir contra a pressão exercida pela sociedade para a mulher assumir o seu papel materno, torna mais visível a influência patriarcal. E também que muitas mulheres estão exercendo seus papeis de mães não por vontade própria, mas de modo compulsório. Realmente, acredito que obrigatoriamente não faça parte do construto do “ser mulher” a maternidade, mas toda mãe é abrangida pela mulheridade.   O que quero dizer é que a maternidade compulsória é pauta feminista justamente porque lutamos pelo direito de escolha pelo seu não exercício, mas também pelo seu exercício e não vejo motivos para que as mães feministas sejam negligenciadas.

A coação da sociedade para seguirmos o roteiro “normativo” pré-estabelecido nos reduz as nossas funções biológicas (mesmo que na prática, nem todas as mães tenham tido seus filhos por esse meio). Somos criadas e induzidas uma vida inteira para acreditar que o ápice de nossa existência é a maternidade. Além disso, o esteriótipo materno faz com que as mães estejam envoltas em uma caricatura divinal e que sintam profunda culpa e pressão na construção de seus relacionamentos com as crias e no reflexo de suas imagens na sociedade. Nesse cenário, perde-se a identidade de mulher independente, desassociado de seu papel materno. As sobrecargas são muitas: o enquadramento imposto nesse esteriótipo, a constante fiscalização do ideal maternal, o desrespeito às escolhas quanto ao exercício da maternagem, o protagonismo compulsório do cuidado, etc. E essas pautas são constantemente ignoradas dentro do próprio movimento feminista ou quando são abordadas têm pouca repercussão.

 

Mulheres estão sendo mortas em abortos clandestinos e isso inegavelmente tem de ser exposto e combatido. Mas também estão sofrendo violências obstétricas inimagináveis, estão tendo a sua escolha de parto negligenciada, estão sendo usadas duramente na comercialização de intervenções médicas desnecessárias ligadas ao parir, estão sofrendo com o enquadramento do estereótipo materno imposto e sendo ignoradas simplesmente por terem escolhido vivenciar a experiência materna. Essas pautas são feministas, essas pautas precisam ser discutidas de maneira urgente e as mães feministas precisam ser ouvidas.

Andréia Ribeiro

Toda criança tem o direito de brincar!

Eu não sei se a minha filha vai ser bilíngue ou se vai cursar medicina;

Eu não faço a menor ideia se ela vai querer ser advogada, professora ou tatuadora;

Eu não faço questão que ela tenha como objetivo de vida alcançar 1 milhão de reais até os 30 anos de idade;

Eu não vou ensinar a minha filha a aprender para passar no vestibular;

Eu não vou ensiná-la a concorrer com os outros; e ter que vencer sempre;

Eu não vou ensiná-la a cultuar as marcas do nosso tempo;

Eu vou mostrar a ela quem são os Estados Unidos, a China e a Europa;

Eu vou mostrar a ela quem somos nós, sulamericanos;

Talvez seja muito cedo para pensar tudo isso aí acima; mas não é cedo para ensiná-la o mais importante agora: brincar!

Brincar com outras crianças

20150527_144010

 

 

IMG-20150603-WA0007

 

 

IMG-20150604-WA0004

Lambuzar-se… de tinta!

20150527_151227

Entrar no baldinho de arroz

20150530_144625

 

Engatinhar por entre letras e números

 

20150606_145838

 

Brincar com a filha da amiga num parque, mesmo que seja só um pouquinho…

 

20150524_153718

Pintar um painel sem ideia de como será o resultado

20150531_151334

 

 

Aprender com o papai a sujar-se de tinta comestível!

 

20150531_152150

Porque, na verdade, meu único compromisso como mãe é deixá-la livre para ser o que quiser. E oferecer a maior quantidade de experiências que ela puder viver. E, desculpe-me, livrá-la da tal da galinha pintadinha…

Quem aqui sabe como será o futuro?

Crédito das brincadeiras: Professora Eliani, MAM, Frederico Bortolato, Luciana Bravin Aguilar (obrigada pelo tapete de letras e números!) e site Tempo Junto (http://www.tempojunto.com/)

Carol Poppi

Mãe-tempo

relógio de sol

Todos os dias, o ritmo do mundo bate à tua porta. Na internet, e seu compasso frenético, milhões de notícias rolam à frente dos teus olhos pela tela do celular. As pessoas saem para trabalhar das 08h00 às 17h00 ou das 09h00 às 18h00 e, no horário de almoço, postam suas fotos nas redes sociais frequentando restaurantes, museus, bares, rua.

Mas você, mãe-tempo, está em casa…

Nem propriamente acordou, pois nem propriamente dormiu. Já desistiu de ver as horas pelo celular. Desligou a TV ou simplesmente a vendeu, sem perspectivas de voltar tão cedo aos velhos hábitos. Você conhece a hora do almoço pela claridade, ou melhor, pelo cansaço. Aprendeu a fazer um frango desfiado orgânico, mas já não pode discutir o escândalo da Petrobrás ou o escândalo do metrô de São Paulo em uma mesa de bar. Seria, talvez, motivo de risos ou, quem sabe, de pena.

Você, mãe-tempo, se propôs, há algumas semanas, a cuidar do cabelo, mas ele vive preso por falta de tempo. Você se propôs a procurar um novo emprego, condizente com suas enormes (!) capacidades, mas até agora não conseguiu localizar a carteira de trabalho. Onde foi que eu a enfiei mesmo?

Você, mãe-tempo, já não seria capaz de dizer em quanto tempo faz o trajeto Butantã-USP-Vila Mariana ou quantos minutos leva para cruzar a Juscelino Kubitschek de cabo a rabo na hora do rush, mas sabe exatamente quantos minutos te sobram por dia para ir ao banheiro, tomar um banho rápido ou engolir literalmente um prato da sobra do almoço, enquanto a cria dorme.

Você já desistiu de se sentir mal todas as vezes que dá o cano no trabalho quando o bebê adoece, pois o bem maior já não é mais a sua realização profissional, mas a saúde e os sorrisos de volta do serzinho que veio para te reposicionar no mundo.

Teu tempo-mãe não te permite participar de todos os posts dos grupos virtuais nos quais se inscreveu nos últimos meses, mas, de vez em quando, esparramada no sofá ou jogada na cama, você se permite um vídeo no youtube, uma leitura agradável de um blog ou um receita de hambúrguer de cenoura. Roupas, sapatos e cremes deixaram há muito de ser itens essenciais e facilmente localizáveis, mas você sabe exatamente onde está o termômetro, o salsep,  o frasco de gotas homeopáticas.Você se tornou capaz de controlar o tempo e consegue, facilmente, acompanhar a evolução de uma febre noturna ainda que esteja dormindo.

O tempo passa rápido, dizem, o primeiro ano voa, mas você sabe exatamente o quanto esse ano-eternidade te mudou por dentro, te trouxe à vida e à morte inúmeras e incontáveis vezes.

Os meses se seguem, uns aos outros, num lopping eterno, os dias também, mas você sabe exatamente quantas vezes ofereceu o peito e consegue medir o espaço-tempo pela dor dos mamilos.

Os dias se seguem, as pessoas vêm e vão, e você está aí, em casa, no teu tempo-mãe, sempre presente e presente, inclusive, na ausência. Você deixa o filho na creche, mas no teu tempo livre não faz outra coisa que pensar no que poderia ter feito de diferente ou de melhor do que fez quando estava com a cria.

Quem foi que prestou atenção em você esse tempo todo? Esquece o mundo, mãe-tempo! É tempo de dar um pouco as costas ao mundo, deixar que ele siga seu curso e, talvez, mesmo ignorá-lo…

Carol Poppi