quando se escreve

eu não escrevo poema
me escrevo

eu não sou poeta
sou matéria viva
(que queima)

eu não tenho público
mas testemunhas

eu não vivo pra escrever
escrevo pra poder viver!

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Ausência

eu sinto saudades de palavras

eu sinto saudades de sensações

que as palavras causam em mim

 

eu confesso

sinto palavras

elas me atravessam

e vão reverberar no que há

de mais íntimo…recôndido

 

sinto falta das palavras

que me compreendem

me traduzem

acalmam

 

eu sinto saudades

de me encontrar

nas palavras

nas minhas

nas outras

 

porque na profusão de dizer

elas se confundem e me leem

me despertam do sono profundo

que é estar presa a um corpo

 

eu acredito ler as palavras

mas são elas que

à espreita

me definem

nomeiam

 

eu sinto falta

das palavras

o tempo

todo

acordada

e

dormindo

Desmarginação

por do sol

 

Não há como cuidarmos das margens

Tudo sempre se desfaz.

 

Desmarginação: perda de contornos.

Deslocamentos de matéria, de energia, de vida.

 

As coisas reais – que são feitas de contorções violentas e dolorosas

Se sobrepõem às falsas – calmas e viscosas, sem contornos nítidos

 

A emoção visual se dilui em emoção tátil

A emoção tátil se dilui em vibração … ad infinitum

 

Qualquer choque ou solavanco

Quando estamos distraídos

Nos desloca a matéria

 

Não há controle sobre as margens

Como em uma dança circular

Tudo sempre se desfaz

 

(Elena Ferrante revisitada)

 

 

Qtas de mim são necessárias para que eu me sinta em paz?

 

Eu

nunca

terei

paz?

 

me abrir ao outro

destemidamente

dia após dia

 

quem é outro?

 

o não dito

o mistério

 

querer ser o lado de lá

todo o tempo

ou

parte do tempo?

 

posso abrir a caixa de pandora?

uma vez aberta, quem serei eu?

tenho direito a ser muitas?

qtos eus me permitem ser?

 

o caminho que me liberta

também me condena

se não posso ser uma

por que temo ser várias?

 

 

Letras

Por muito tempo, tempo demais, eu lutei contra a corrente. Achava que sabia mais a língua do que os outros, que podia dizer como usá-la, o que era erro e o que era acerto! Que pretensão a minha. No meu diploma não está escrito “fiscal da língua portuguesa”, mas “bacharel em letras”. Letras, assim, no plural. Todas as letras e multiplicidades de expressão, de comunicação. No meu diploma de mestrado, igualmente, está escrito “mestra em letras” em “tradução”. Ora, de mim, espera-se reconhecimento, de mensagem e de ruído. Reconheço a intenção, traduzo, auxilio maus entendidos e, quando me pedem, oriento. Não se esperam de mim canetadas, ridicularização, diminuição. A variedade e a imensa gama de possibilidades da língua portuguesa fazem de mim uma observadora da criatividade humana e não uma censora legitimamente diplomada! Expressão tem que ser liberdade!

CORPO EM DIÁSPORA

descolonizar o gesto movimentos disciplinados são europocêntricos
o futuro é circular ele pode estar na frente mas também está ao lado ou mesmo atrás mexa seu cosmos levante a cabeça não seja subserviente enfrente a vida no miúdo ou no grande movimente-se siga a pulsação