Banho

De todos os momentos em que passamos juntos, o que me lembro com maior prazer era a saída do banho. Seu corpo, ainda úmido,  cheirava a erva-doce. Eu perguntava o que tinha passado, por que aquele cheiro era tão bom, ela acenava com displicência, me respondia com um sorriso de timidez. Pelo olhar, me repreendia. Era como se pedisse que a deixasse ao menos uma vez em paz. Era um pedido de trégua da minha masculinidade. Circulava pela casa, de calcinha apenas, às vezes de calcinha e sutiã, em busca de uma meia ou de um brinco. Nunca estava nua. Acho que por fetiche ou por costume, passei a desejá-la assim, vestida, deixando a cargo da minha imaginação tirar ou não o que cobria aquele corpo. Mas o fato é que nunca tirei. Não sei se por saber que ela não permitiria jamais tamanho desejo sobre si ou se por preferir assim, uma expectativa, um talvez, eu nunca toquei aquele corpo saído do banho, nunca. O cabelo molhado, me lembro bem, ondulado, leve, caído sobre os ombros. Ela passava os dedos por entre os fios e a mão saía úmida. Fresca, revitalizada, ela sacudia os cabelos dando pequenas chacoalhadas, e as gotas escorriam pelas costas, parando apenas quando alcançavam o tecido do sutiã. Ah! Eu poderia ficar observando-a por horas, assim, sem toca- lá, apenas seguindo seus movimentos com os olhos. Os pés sempre nus, nunca calçados, davam passos leves sobre o assoalho frio. Ficava imaginando o frio do assoalho arrefecendo a temperatura quente do corpo gradualmente até o momento em que já totalmente seca, colocaria a calça jeans para esquentar o corpo. Por cima do sutiã,  uma blusa leve, às vezes, transparente. Fechava os olhos e desejada que a cena toda voltasse ao início. Revivia alguns detalhes mil vezes só pra mim. Aguardava pacientemente o próximo momento em que ela pudesse desfilar novamente, sem saber que a observava, entre um filho ou outro que dormia, ou quando deixava o bebê com a babá para se dar um banho.

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SURDA MUDA

Quando as tuas palavras tocaram meu corpo, eu já não conseguia mais respirar. Algumas vezes isso já havia acontecido, lembranças, riscos de memória, uma foto, uma carta. Mas desta vez, fiquei suspensa uns minutos, sem ar, a mente vacilante, bailarina, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá… onde foi mesmo que eu parei? Olhei em volta, não reconheci o entorno.  Senti um calafrio, um arrepio veio em seguida. Repetia mil vezes o que tinha lido, uma, duas, três vezes. Os olhos iam e vinham. Parava, atônita, voltava ao início. Lembrava. Relia. Talvez uns 10 minutos eu tenha ficado tão longe, tão ausente, tão sublimada que se alguém me chamasse eu me faria muda, surda, invisível. Não é sua importância, veja, são as palavras. Elas tocam e transformam. Eu sabia que elas iriam embora em minutos, talvez horas, neste caso, dias. Somente em alguns dias. Eu lia e relia à exaustão. Cansada delas, eu fechava os olhos e lembrava. Vivia tudo novamente. Uma, duas, três vezes. Me ausentava. Me fazia silêncio. Esquecia de mim. Voltava a um tempo sem dono, sem regras, sem nome, sem fim. Um tempo só meu, sem acesso, sem registro, sem lastro. Me agarrava a tudo isso como se pudesse me salvar, como se pudesse entender o que vinha acontecendo. Quem eu era, em quem tinha me transformado. Ah! As lembranças, tão traiçoeiras, tão incongruentes. Quem sabia de tudo senão eu? Quem poderia me salvar do abismo senão eu? Mil vezes o escuro a essa certeza de tudo. Me vi pedra, arame, crueldade, dureza. Por que estou assim? Não era esse o sonho. Não era essa a minha vida. Coração voltou a pulsar, sentia no peito a força das paredes, da responsabilidade, do seguir em frente. Oi? Sim, estou aqui. Vamos lá. Em que posso ajudar?

Uma estória desinteressante

Era uma sexta-feira abafada de janeiro quando a família se mudou para o apartamento ao lado. O imóvel estava desocupado há mais de um ano, não imaginava que, em plena crise, ele seria alugado. Mas foi. Por quatro: pai, mãe, uma menininha birrenta e um bebê sorridente que não tinha nem um ano. Não sou família, nunca tive marido, filhos, sobrinhos em casa, nada. Gosto da solidão. Mas também não sou avessa a crianças – elas vêm e vão, num piscar de olhos já são adolescentes, depois adultas e pronto, o ciclo se fecha para recomeçar -, apenas prezo meu direito ao silêncio. Porque, convenhamos, o silêncio é um direito. Vozes muito altas, barulhos de porta batendo, cachorro latindo não são propriamente meus sons preferidos. Eu os suporto. Suporto como uma carga que não é minha e que, portanto, logo passa. De toda forma, o prédio também vinha modificando o perfil dos seus moradores. Dos senhores de meia idade a senis de outrora, vinha sendo, nos últimos 5 anos, preenchido por famílias com crianças. Quem vai dá lugar a quem, vem como deve ser. Eu não. Me mantenho observando. Moro há 60 anos no mesmo lugar. Não são propriamente sessenta anos, mas costumo usar minha idade para medir prazos longos, e este é justamente o caso. Terminada a mudança, um sobe e desce de cama, máquina de lavar, geladeira e fogão, tudo estava em seu lugar. A família se instalou rapidamente e, para minha surpresa, era silenciosa. Um choro aqui e ali, um grito mais alto, um acesso de tosse, um descontrole repentino, mas no mais das vezes, uma vizinhança tranquilíssima. Que sorte a minha! Meu direito ao silêncio se manteria. Raramente cruzava com meus vizinhos. Quando saía mais cedo, encontrava o pai com a filha maior no elevador. Quando saía depois do almoço, era a vez de encontrar a mãe com o bebê no colo. Parecia arrumada. Trabalhava fora, talvez. Me lembro de ter dito ser professora ou algo do gênero. O que poderia ser algo do gênero? Escritora? Pedagoga? Ah, não sei. O fato é que também nunca me interessei. Vizinhos e crianças: que interesse despertam? Aos domingos, a casa era um silêncio. A família não ficava confinada nos 68m2 aos finais de semana. Mais uma vez, que sorte a minha! Lembro-me de uma ocasião em que cruzei com a mãe e a menininha em um domingo. Iam a feira, vejam só! E assim passaram-se alguns meses. Sexta-feira da semana passada, um caminhão pequenino de mudança estava parado em frente ao edifício. A família se mudava. Novamente as caixas, o fogão, a geladeira. Seguiam novo rumo. Uma família que tentava se adaptar. Mudando. Se reinventando. Se desafiando. Eu não. Moro no mesmo lugar há 60 anos.

Cativeiro

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Durante dias, talvez um mês, talvez dois, não sei bem ao certo, enquanto amamentava, meus olhos se fixavam sempre por através da janela, acompanhando uma linha contínua de luzes, reta, precisa, inexorável. Essa linha, cortada por outras linhas, por onde passavam outras luzes móveis, que assumiam velocidades variadas foi, por muito tempo, meu depositário de angústia. Movia-me, imaginariamente, por essa linha, andava, parava, olhava as pessoas ao redor, detinha-me nas esquinas, vez ou outra trocava algumas palavras com pessoas reais apenas pra mim. Depois, olhava para o bebê, já adormecido, com a boca ainda presa ao peito e, vagarosamente, colocava-o no colchão. Algumas vezes, para não perder o hábito, deixava apenas uma fresta horizontal da persiana na altura dos olhos, e mesmo depois do bebê dormir, mantinha-a suspensa, também adormecendo sob o olhar da cidade. Na época não compreendia o que hoje sei: precisava dessa visão para alargar-me para além dos cômodos que nos impusemos por este curto tempo. Da experiência vivida, levo esta imagem: a linha que me libertou das angústias do cativeiro.

Jataís

 

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A casa não está fincada no concreto. Encontra-se em terreno ainda fértil. Fértil, porém perigoso. A casa anda, se move, tem trajetória. Há vida sob a casa. Meio sem graça, em toda a humildade na qual vive, chamou-nos em um canto e disse:

– Vejam, neste buraquinho saem as abelhas, lá dentro fazem mel.

E eu, com a minha sabedoria pobre da cidade, perguntei inocentemente:

– Dá pra pegar o mel?

Ele sorriu, um sorriso maroto, cheio da sabedoria rica do campo e disse:

-Só se derrubar a casa!

Me envergonhei. A minha curiosidade pela casa dele. Disse tudo isso depois de ver a foto que tirei da flor que varou o concreto e saiu na parede. Pra mim, símbolo de luta, de vitória. Pra ele, nada além da força da natureza. Força invisível pra quem é da cidade.

Uma utopia possível

 

 

 

Três livros mudaram minha forma de ver o mundo e o outro em 2015: “Outrofobia” de Alex Castro, “Eu sou Malala” (a biografia de Malala Yousafzai) e “Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi. Todos me propuseram um olhar para o outro, para o diferente, para aquele que não sou eu.

Dos três, o que me causou maior impacto e admiração foi o livro da Márcia. Incrível resposta a tudo o que procurava, ele me deu as bases para ser quem sou desde o momento em que comecei a lê-lo.

Por admiração e para não esquecer suas principais mensagens, fiz um resumindo das ideias-chave ali propostas. Eu tinha estabelecido essas ideias como metas pra vida, mas achei melhor apresentá-las como um resumo do livro, afinal, em se tratando de utopia possível, cada um vai buscá-la a seu tempo…

“Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi

(Uma amostra grátis da utopia possível em nossos tempos)

1. Falar sim sobre política/ensinar a pensar política (“Talvez a destruição da política seja a verdade oculta na razão de Estado atual);

2. Dialogar com fascistas (resisitir. Com a alma. Com o corpo, se necessário);

3.Dialogar como forma de resistência; devolver às pessoas a capacidade de dialogar (aventurar-se no desconhecido);

4.Olhar mais para si mesmo e policiar-se quanto aos preconceitos cotidianos (que sim, todos cometemos);

5. Posicionar-se quando necessário, contribuindo para a “perfuração do muro ideológico da ignorância”;

6. Sair da posição de vítima;

7. Ensinar amor aos filhos (e não ódio, nem desconfiança);

8. Escutar mais mesmo que essa escuta exija resistência física e emocional; olhar e escutar com empatia;

9. Produzir aberturas (“Como apresentar a experiência do outro a quem ainda não o concebeu?”)

10. Ser capaz de contemplar o outro;

11. Lutar contra o império da burrice e da canalhice que impera nos dias de hoje;

12. Lutar contra o consumismo da linguagem;

13. Lutar contra toda e qualquer forma de autoritarismo (os próprios inclusive);

14. Lutar contra a Indústria Cultural e a banalização de expressões legítimas de culturas historicamente excluídas;

15. Ajudar a desconstruir a lógica das “hordas de zumbis antipolíticos”;

16. Lutar contra a “ignorância elevada a método de dominação cultural”;

17. Lutar contra a sociedade do assédio;

18. Dançar a dança dionisíaca da diferença;

19. Dar-se o direito da angústia; da incerteza; da tristeza; do luto;

20. Praticar o desapego;

21. Não condenar, julgar antes de saber;

22. Praticar sororidade;

23.Lutar pela descriminalização das drogas;

24. Lutar pela legalização do aborto;

25. Ser mais e mais feminista;

26. Ajudar homens a desconstruir seus machismos cotidianos;

27. Ler mais livros;

28. Convencer as pessoas a desligarem a televisão;

29. Ajudar as pessoas a se libertarem do vício da televisão;

30. Lutar com ética e política contra a invejoso e o portador de ódio;

31. Combater o “coronelismo intelectual” da grande mídia;

32. Praticar o pensamento livre (autocriticar-se, buscar conscientemente as próprias inconsistências, possibilitar-se a autocriação);

33. Lutar, mesmo que minimamente, contra a antipolítica e a antieducação;

34. Incentivar a invenção teórica, a liberdade de interpretação e de expressão;

35. Combater a ditadura “micrológica” do cotidiano;

36. Silenciar mais; saber ouvir;

37. Lutar com informação contra o intelectualismo preconceituoso hereditário no Brasil (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, Darcy Ribeiro entre outros);

38.Lutar contra a ideia do Brasil esteriotipado (homem cordial, jeitinho brasileiro etc);

39. Pensar o Brasil (e não reproduzir o senso comum);

40. Investigar a veracidade do senso comum antes de reproduzi-lo, compartilhá-lo;

41.Ouvir o que o outro tem a dizer; não projetar-se no outro;

42.Colocar-se sempre no lugar do outro antes de emitir qualquer julgamento;

43.Desejar relacionar-se ao outro;

44. Ser sujeito e objeto. Tudo ao mesmo tempo;

45.Não confundir discurso com diálogo; buscar o segundo e não o primeiro;

46.Aceitar o estranho que em nós habita;

47. Sair da lógica “mesmo-outro” e buscar a lógica “entre-nós”.

Carolina Poppi